A Voz das Chaminés: coletânea em LP registra a força do rock underground do ABC Paulista em 1987
A coletânea Rock do ABC, idealizada pelo Rocker Jornal e prevista para lançamento em abril de 1987, reuniu seis bandas do Grande ABC em um LP dedicado à cena underground da região. Com grupos de São Caetano do Sul, Santo André, Ribeirão Pires e São Bernardo do Campo, o disco apresentou diferentes vertentes do rock, do punk ao pós-punk, além de letras de protesto e críticas sociais. Em uma região marcada pela industrialização e pelas mobilizações operárias, o álbum tornou-se um registro da criatividade e da atitude de uma geração de músicos que buscava espaço no cenário musical brasileiro.
São Paulo, março de 1987
Entre chaminés industriais, bairros operários e a efervescência dos movimentos sociais, o ABC Paulista também fazia barulho com guitarras distorcidas, letras contestadoras e a energia de uma juventude que buscava sua própria voz. Em meio a esse cenário, a coletânea Rock do ABC surge como um registro da cena musical independente que ganhava espaço na região durante a década de 1980.
Idealizado pelo Rocker Jornal, o projeto reuniu seis bandas de diferentes cidades do Grande ABC, documentando a diversidade sonora e a atitude de músicos que encontravam no rock uma forma de expressão artística e social. A iniciativa contou com a colaboração da gravadora LUP SOM e da Rocker Produções, com distribuição nacional prevista pela RCA/Ariola. O lançamento estava programado para 15 de abril de 1987.
Mais do que reunir músicas em um disco, a coletânea representava uma oportunidade de levar a produção underground do ABC a públicos de outras regiões do país, ampliando a visibilidade de grupos que construíam suas trajetórias longe dos principais centros da indústria fonográfica.
Seis bandas, diferentes caminhos musicais
A coletânea apresenta um panorama da diversidade do rock produzido no ABC Paulista, reunindo influências do rock'n'roll, do punk, do pós-punk, do reggae e até de elementos da música flamenca.

64 e os Seus Efeitos Colaterais — São Caetano do Sul
Formada no início de 1985, a banda era composta por Maurício (vocal e guitarra), Pan (guitarra solo), Duó (contrabaixo) e Fabrício (bateria). O grupo participa da coletânea com as faixas Lilian e Nada é Eterno, apostando na sonoridade do rock'n'roll.

Ibiza — Santo André
O nome da banda foi inspirado na ilha espanhola de Ibiza, em referência a um sonho do pai de dois de seus integrantes. A formação reunia Pedro (guitarra), Gonzalo (contrabaixo), Renato (bateria) e Arnaldo nos vocais, que assumiu a função após a saída de Miguel.
Com as músicas Incógnita e Contraste Social, o grupo explorava caminhos do rock contemporâneo, incorporando influências da música flamenca à sua identidade sonora.

Corte Marcial — Santo André
Criada em 1982, inicialmente com uma proposta punk, a Corte Marcial ampliou seu repertório de influências ao longo da trajetória, transitando entre o rock'n'roll, o pós-punk e o reggae.
A formação era composta por Buba (vocal), Fernando (bateria), Rene (guitarra) e Marcelo (baixo). Na coletânea, a banda apresenta Parado no Silêncio e Saber Conversar, duas faixas que integram o registro da produção independente andreense.

O Epílogo — Ribeirão Pires
Surgida no final de 1985, O Epílogo conquistou espaço rapidamente na noite musical do ABC e da capital paulista. O grupo era formado por Beto Moraes (vocal), Rica Fonseca (guitarra), Marcos Favero (baixo) e Mauro Chemello (bateria).
Conhecida por suas letras elaboradas e sutis, a banda participa do álbum com Nenhuma Razão e Promessas Loucas, contribuindo para a diversidade temática e musical do projeto.

Decreto-Lei — Santo André
Formada por Toni (baixo), Wilson (guitarra), Binho (bateria) e Silas (vocal), a Decreto-Lei direcionava suas composições para temas de contestação social e para as experiências de uma geração que cresceu sob a ditadura militar brasileira.
As faixas Rebeldes e Coisa Habitual representam a participação do grupo na coletânea, reforçando a presença de letras críticas em uma cena musical marcada pela busca de liberdade de expressão.

Hino Mortal — São Bernardo do Campo
Associada aos primórdios do movimento punk paulista, a Hino Mortal ocupa um lugar importante na história do rock independente da região. A banda também é mencionada em obras de referência sobre o gênero, como O que é Punk, de Antonio Bivar, e Rock, a música do século XX, de Pepe Escobar.
Com uma sonoridade pesada, o grupo contava com Índio (vocal), Ricardo (bateria), Rato (guitarra) e Ratinho (baixo). Sua participação no LP inclui Brasil e Campos Religiosos, sendo esta última apontada como afetada pela censura.
Entre as fábricas, as greves e a liberdade de expressão
A concepção visual de Rock do ABC dialoga diretamente com a realidade social e industrial da região. A arte da capa e da contracapa estabelece um contraste entre as fábricas e o movimento grevista, aproximando a identidade visual do disco do cotidiano de uma região historicamente marcada pela organização dos trabalhadores e pelas mobilizações sociais.
Nesse contexto, o rock não era apenas entretenimento. Para muitos jovens, representava uma maneira de questionar comportamentos, expressar insatisfação e construir uma identidade cultural própria. Os ensaios, as apresentações e a circulação de produções independentes ajudavam a fortalecer uma rede de músicos que buscava espaço fora do circuito comercial dominante.
A coletânea Rock do ABC registra, assim, um momento significativo da produção musical independente do Grande ABC. Ao reunir seis bandas de São Caetano do Sul, Santo André, Ribeirão Pires e São Bernardo do Campo, o projeto transformou parte dessa efervescência cultural em um documento sonoro.
Em março de 1987, enquanto a região seguia marcada por sua vocação industrial e por intensas transformações sociais, as guitarras do ABC também reivindicavam seu espaço. E, por meio do vinil, aquela geração buscava fazer sua música ultrapassar as fronteiras da região.
Um registro da história do rock do Grande ABC, em que a criatividade de uma geração encontrou nas chaminés das fábricas o cenário de sua própria revolução sonora.
Agradecimentos a Daniel Tezlaf pelo envio desse material riquíssimo que ajudou a compor o texto.











